O quarto poder



Neste especial número do jornal “O Comércio de Guimarães” que assinala o centésimo quadragésimo ano da sua publicação, deu-se a feliz coincidência

de me caber a habitual colaboração do artigo de opinião, não podendo, por isso, deixar de focalizar esta importante efeméride.

Começo por confessar que o meu interesse por jornais e revistas me vem desde muito jovem, após a entrada no antigo Liceu Nacional de Guimarães, pelo ano de 1963, quando tive a oportunidade de começar a deleitar-me com a leitura das resmas de revistas da “Ilustração Portuguesa”, deixadas pelo meu avô materno, então já falecido.

Tendo elas, por qualquer razão, desaparecido do meu alcance, infelizmente, recordo, contudo, os relatos que faziam chegar acerca da evolução nas frentes de batalha da primeira grande guerra de 1914/1918 e da vida nas trincheiras, relatos geralmente acompanhados de caricaturas da autoria do grande artista português Rafael Bordalo Pinheiro. Assim me comecei a interessar pela leitura de jornais e revistas, evoluindo mais tarde, já pelos meus quinze anos, para uma outra publicação que me marcou, a revista “Vida Mundial”, dirigida por Augusto Abelaira. Já na universidade, em 1970, fui-me interessando pelos jornais nacionais como o Diário de Lisboa, o Diário Popular, a Capital e pelo muito divulgado entre as camadas estudantis, “Comércio do Funchal”, então dirigido pelo guru do jornalismo português do século XX, Vicente Jorge Silva.

Na verdade, o jornalismo desde sempre desempenhou um importantíssimo papel na vida das comunidades, nomeadamente a partir da descoberta de Gutenberg da impressão mecânica, que permitiu a produção em massa de livros e outros materiais impressos, verdadeiro marco histórico que catalisou a disseminação do conhecimento e o avanço da cultura, marcando o início da era da imprensa moderna.

Antes da imprensa, o papel de fiscalização e denúncia dos abusos de poder era posto em prática, sobretudo pelos clérigos, pelos monges e pregadores, nomeadamente a partir dos púlpitos e em ocasiões especiais do ano litúrgico.

Actualmente é-lhe reconhecido um papel crucial na estabilidade e fortalecimento da democracia constituindo um verdadeiro quarto poder, a par do legislativo, do executivo e do judicial, ao escrutinar todos eles, denunciando abusos de poder e outros problemas que podem minar a integridade das instituições democráticas aumentando a transparência e responsabilidade dos governantes perante o povo.

Exercem também um papel importante na informação e educação cívica, fornecendo informações precisas e contextuais sobre questões políticas, sociais e económicas, “a opinião pública”, indispensável para que os cidadãos tomem decisões informadas, condição essencial para o funcionamento saudável de uma democracia.

A imprensa periódica chegou a Guimarães em 1822 com a publicação do “Azemel Vimaranense”, tornando-se assim a nossa cidade uma das primeiras a beneficiar de imprensa local, logo a seguir a Lisboa, Porto e Coimbra, assistindo, ao longo dos tempos, ao aparecimento de mais de centena e meia de publicações correspondendo aos diferentes interesses políticos, religiosos, sociais e económicos de cada época.

Chegados ao ano de 1884, “O ano que mudou Guimarães”, título de um livro de Amaro das Neves, verdadeiro registo histórico dos principais eventos vividos pelos vimaranenses nesse glorioso ano – Exposição Industrial, criação da Escola Industrial e chegada do Caminho de Ferro - e registo biográfico dos seus principais protagonistas, é lançada, pela Sociedade Martins Sarmento, a “Revista de Guimarães”, e publicado, em 15 de Maio desse mesmo ano, o primeiro número deste importante jornal “O Comércio de Guimarães”.

Na sua Capa constava o Artigo Programa: “O Comércio Guimarães armando-se para a vida pública no momento em que muitos desertam por desilludidos ou desertam por desnecessários, precisa justificar-se publicamente da razão de ser da sua existência e da oportunidade do seu apparecimento. Começa, pois, por declarar que, distanciado dos múltiplices partidos em que se divide a política activa, pertence contudo à grande família liberal portuguesa cujas tradições são a melhor garantia das suas esperanças.
Não suppõe valer mais do que uns, nem ter illusões mais arreigadas do que outros: julga apenas que advogar à tort et à travers os actos e interesses de uma dada facção política com o manifesto prejuízo dos interesses geraes; que divulgar, segunda conveniencia própria, as mais avançadas formulas económicas sem menosprezo das regras da moralidade mais subida; que defender a agricultura cujo atrophiamento a emigração antecipa; que proteger a indústria contra importação e o commércio contra o livre câmbio, é muito para as condições do nosso meio social, é muitíssimo para affirmação das nossas exigências públicas; mas é insufficiente para a orientação dos espíritos mas é de um resultado nullo para as pequenas cidades que a centralisação affasta do progresso, e que os recursos próprios desviam do movimento.
O Comércio Guimarães conservando-se alheio a qualquer filiação partidária que não seja das conveniências locaes e das grandes medidas de interesse comum, louvará em uns e outros o que em cada um houver de louvável, empregando todos os seus esforços para que uma parcela do poder central vele pela prosperidade da terra que lhe é berço e por tudo que, directa ou indirectamente, possa influir no aumento dessa prosperidade.
Em política geral não terá cor, terá consciência: em política local não teria amigos, terá justiça. Deixa aos declamadores a discussão das supremacias políticas e a insolúvel resolução das insolúveis finanças nacionaes: não discutirá a opportunidade do imposto se sua distribuição for equitativa e a sua cobrança regulada pelas normas da mais estricta moralidade.
Será pelo opprimido contra o oppressor quando este representar a prepotencia e aquelle a humilhação ou fatalidade; defenderá a integridade do território contra as ambições estrangeiras e será pelo povo contra os corrilhos e pelos corrilhos contra o despotismo. Quer melhoramentos proporcionais aos recursos financeiros; quer a justiça sem coacção, a lei sem ambiguidades, a liberdade sem escrúpulos, a instrução sem Limites, a imprensa sem dependenas, tudo que tende a dar ao povo a razão dos seus direitos e a razão os seus deveres, tudo que faça das consciências o espelho da humanidade e mais que tudo e sobretudo o que faça desta desprotegida cidade a cabeça das províncias do norte pela elaboração das ideias e o coração dessas províncias pela iniciativa dos sentimentos generosos.”

Apesar dos 140 anos já decorridos, continuam bem actuais os princípios norteadores da sua acção. Parabéns a todos aqueles que ao longos de todos estes anos foram contribuindo para que pudesse constituir um farol de referência e um repositório e registo de factos da história de Guimarães.

Guimarães,
13 de Maio de 2024
António Monteiro de Castro

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